VÍCIO
parei de fumar
“talvez eu nasça”. colagem minha, 2026
Parei de fumar há seis meses. Parei de fumar no dia que minha mãe faria 69 anos se estivesse viva. Parei de fumar logo após receber o diagnóstico de apneia obstrutiva do sono. Parei de fumar porque descobri que paro de respirar inúmeras vezes durante a noite enquanto durmo. Parei de fumar porque fiquei apavorada com a ideia de morrer sufocada dormindo. Parei de fumar porque minha mãe morreu de uma doença respiratória. Apneia traz prejuízos à saúde, mas não chega a matar. A mente da pessoa ansiosa, no entanto, é imune a evidências científicas. Parei de fumar porque fiquei com medo de morrer. Comecei a fumar porque precisava morrer um pouco, não muito. Foi só a maneira menos ruim que encontrei de me destruir um bocado num momento que a vida ficou destrutiva. Começar a fumar foi a redução de danos possível para elaborar traumas devastadores.
O vício é essa coisa depravada, abjeta, relegada ao ostracismo. A adição é a perversão das leis, da moral, dos costumes; nada mais é que um hábito. A qualidade atribuída ao hábito vai depender da cultura, da época, do contexto. O cigarro saiu de moda, e os fumantes foram confinados ao meio-fio, à borda dos territórios de convivência social — o que, para mim, rendeu momentos aliviadores, dos quais agora sinto falta, devo confessar. Há vícios estimulados e há vícios rechaçados, mas de um jeito ou de outro estão sempre presentes, são tão penetrantes, tão inexoráveis à experiência humana, pairam ora como compulsão ora como estado alterado de consciência. Explorar vários estados alterados de consciência sempre foi um luxo distante, inalcançável, desejado. Apesar de não parecer nem aparecer, o inconsciente não se esconde tanto quanto gostamos de acreditar, mergulho no meu com certa frequência e o conheço bem o suficiente para saber que a depender da curva errada que a viagem da alteração de consciência pegue, a minha capacidade gerativa de paranoias não tem limite. Contento-me com a compulsão.
Tenho várias. A compulsão do momento tem sido joguinho de celular. Celular, objeto generalizado de compulsão, tão presente, tão inexorável à experiência humana desse início do século 21. Celular, descendente direto do telefone que já serviu para estabelecer a comunicação síncrona entre dois ou mais falantes, agora serve basicamente de portal para as redes sociais. A comunicação é majoritariamente assíncrona e se ramifica através de texto, áudio, imagem, vídeo. O desejo máximo é que cada indivíduo fale para o maior número de seguidores ouvirem e serem influenciados. Falamos muito, escutamos pouco, filtramos nada. Somos bombardeados de estímulos e de publicidade a torto e a direito. Estamos todos viciados nessa dinâmica. Há quem diga que o vício em celular se compara ao vício em cigarro, que o vício em açúcar se compara ao vício em cocaína, que assistir à pornografia vicia e gera impotência sexual. Enfim, somos muito criativos quando o objetivo é argumentar contra qualquer hábito que abale as leis, a moral e os costumes do nosso tempo.
Eu estou exausta, sufocada com toda essa invasão pervasiva que salta da tela em minhas mãos. Com frequência, sinto a ânsia de tacar meu celular na parede para ter o prazer de o ver espatifado em pedacinhos no chão. Um sonho inalcançável, irrealizável. Pois é. Agora internet é morta. A teoria da internet morta começou a circular pelos fóruns da web na década de 2010 e alegava que a maioria da atividade humana na internet seria gradativamente substituída por robôs. O que era uma mera da teoria da conspiração, na década de 2020, com o avanço da Inteligência Artificial, parece estar se tornando realidade. Para quem, como eu, nasceu no fim da década de 1980/início da década de 1990, começou a usar a internet no início dos anos 2000, acompanhou o seu surgimento, crescimento, expansão e ápice, hoje testemunha a saturação total e absoluta das dinâmicas estabelecidas; morre de saudade de poder sair da internet, ficar offline no MSN, desligar o computador e conseguir visualizar a fronteira evidente entre o mundo real e o mundo virtual.
As fronteiras ganharam vida própria, andam embaralhadas, nebulosas e só erguem suas muralhas quando querem excluir. De resto, as invasões e colonizações de territórios e imaginários seguem a toda. O excesso de fotos com filtro, vídeos curtos, postagens com música, carrosséis de texto, publicidades estridentes e discursos pasteurizados são uma espécie de exército colonizador a estuprar o nosso inconsciente sem parar. Há um volume sem precedentes de informação, imagem e estímulo sendo introjetado por nós e saturando nossa capacidade de elaboração, imaginação e fabulação. Não acho que tenhamos muita noção das consequências disso ainda... Por ora, decidi voltar ao princípio.
O jogo de cobrinha do celular tijolão da Nokia consistia num amontoado de pixels organizado em linha reta, simulando uma cobra, que se movimentava sem parar sobre um fundo verde amarelado. Aleatoriamente, aparecia um ponto, uma comidinha, em algum canto da tela. O objetivo era direcionar o réptil através dos botões 2 [cima], 6 [direita], 8 [baixo] e 4 [esquerda] à comidinha. Quanto mais se alimentava, maior ele ia ficando, o que aumentava o grau de dificuldade do jogo, porque o bicho não podia esbarrar na moldura da tela nem em seu próprio corpo, se não morria. Era divertidíssimo passar horas jogando isso nos momentos de tédio, naqueles horários em que o pulso do telefone/da internet era mais caro e não podíamos nos conectar.
Hoje em dia, para me <<<<desconectar>>>> das redes sociais, me joguei no abismo dos jogos gratuitos para celular. Calma, nada de Tigrinho. Não gasto um tostão para ter mais benefícios dentro do jogo, no máximo assisto a publis de outros jogos para ganhar esses mesmos benefícios. Girl Rescue me enredou numa nova, porém similar aventura. Minha missão é salvar a princesa encurralada num labirinto. O réptil é um dragão, seu corpo também se movimenta sem parar, mas agora ele é composto de bolotas coloridas, de cores variadas. Em vez de alimentar o bicho para fazê-lo crescer, preciso matá-lo aos poucos, eliminar uma a uma as bolotas coloridas para que seu tamanho se reduza gradativamente, e as chamas que escapam de sua boca não cheguem na princesa encurralada que arfa em ansiedade.
Para a princesa, não existe saída. Ou ela morre queimada ou é salva e levada ao próximo nível: ainda encurralada, ainda em crise de pânico. Para quem joga, se torna cada vez mais difícil matar o dragão.





Caracas!!! Sacanagem com a princesa.
https://youtu.be/H3wv-d_6AN4
Qual joguinho?